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Entrevistas
19/04/2016
Transe e violência

Não é mais possível essa festa de medalhas, esse feliz aparato de glórias, esta esperança dourada no Planalto. Não é mais possível essa festa de bandeiras com guerra e Cristo na mesma posição. Não é possível a impotência da fé, a ingenuidade da fé. Até quando suportaremos? Até quando, além da fé e da esperança, suportaremos?
 
As frases acima são do poeta Paulo Martins, de "Terra em Transe". Elas são ditas quando a burguesia rompe a aliança com o setor organizado dos trabalhadores. O populismo entra em crise terminal e a reação da direita sobrevém, violenta.
 
Escritas por Glauber Rocha, as sentenças servem de comentário para a grotesca encenação de domingo na Câmara, presidida pelo sorriso cínico de Eduardo Cunha. Se vulgaridade, hipocrisia e miséria moral fossem crimes, a Papuda seria pequena para abrigar tantos transgressores.
 
Não se trata das gravatas metálicas, da concordância verbal de estourar os tímpanos, dos papagaios de pirata, dos topetes postiços e acaju, dos selfies onipresentes. Isso são só formas da breguice.
 
No núcleo duro do conteúdo, os deputados justificaram o enterro da soberania popular com a cinquentenária santíssima trindade: Deus, família, propriedade. "Terra em Transe" serviu de síntese artística de 1964. Rever a obra-prima à luz de Cunha é constatar que o Brasil mudou. Desta vez, nem foi preciso recorrer aos brucutus verde-oliva.
 
A terra está tão dominada que prescinde de transe. Basta ater-se ao espírito das leis para enxotar aliados que se tornam indesejáveis. O estado de exceção é norma.
 
Está tranquilo, está favorável –mas nem tanto. Para impor o plano de austeridade que lhe foi ditado pelos grandes proprietários, Temer terá de restringir direitos que os pés rapados obtiveram nos últimos anos. Uma parte do povo reagirá. Nalgum grau, haverá violência.
 
A violência já está entre nós, ainda que restrita a símbolos. Na avenida Paulista, arautos da ditadura foram novamente tolerados. Como na Câmara, o que valeu ali foi a tríade tradição-família-propriedade, ideologia brandida contra, como se diz nos Jardins, os mortadelas, metáfora para o povo pobre.
 
No Anhangabaú, no velório do malfadado governo Dilma, o Levante Popular da Juventude mimetizou as bandeiras negras do Estado Islâmico. Na Câmara, houve quem homenageasse militares torturadores; e quem enaltecesse Lamarca e Marighella.
 
Como a disputa política também se faz de exageros verbais, as bravatas integram o seu léxico. Ocorre que houve violência real. Sindicatos e sedes da CUT foram vandalizados por milicianos da direita, bem como o Instituto Lula.
 
Guilherme Boulos, líder dos sem-teto, teve sua prisão pedida por um deputado tucano e outro do DEM. Não porque receba propinas, mas por ter conclamado a revolta contra a derrubada do governo. Para os deputados, liberdade de expressão é banditismo.
 
Temer está em vias de ocupar o Executivo. Terá como comparsas Cunha e Renan Calheiros, os chefes do Legislativo. No Judiciário, o líder é Gilmar Mendes. O Estado inteiro estará com a direita. E foi de dentro do Estado que partiram as violências maiores: divulgar um telefonema da presidente; destituí-la.
 
Diante do colapso do populismo, o poeta de "Terra em Transe" indaga: até quando suportaremos? O filme oferece como resposta a luta armada (na trilha sonora) e o sacrifício solitário (nas imagens). Outra saída há de haver
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