Assessor desvia R$ 5,3 mi de prefeitura em três anos e torra dinheiro com jogos e mulheres

  • Polícia
  • 31/10/2026 08:54

Ao longo três anos, entre junho de 2022 e outubro de 2025, o contador Michel Bruno Medeiros de Almeida, 35 anos, conseguiu desviar R$ 5,3 milhões dos cofres da Prefeitura Municipal de Inocência, a 330 quilômetros de Campo Grande. O ex-tesoureiro torrou a fortuna com jogos de azar, mulheres, imóveis e carros. Apenas em lotéricas, com a realização de 1.309 jogos, ele gastou R$ 914 mil.

Conforme a denúncia do Ministério Público Estadual, Michell Bruno começou a praticar os desvios falsificando boletos e desviando tributos, como ISS, ITBI e IRRF, quando ocupava o cargo de tesoureiro da prefeitura em 2 de junho de 2022. A prática prosseguiu quando ocupou outras funções de confiança, como secretário municipal de Administração, contador e chefe do Inoprev (Fundo de Previdência de Inocência).

As transferências começaram com valores irrisórios, mas não tão baixos. Entre os dias 22 e 29 de setembro de 2022, por exemplo, o contador realizou 11 transferências bancárias para a conta no Mercado e um Pix, com valores oscilaram entre R$ 1 mil, R$ 1,5 mil, R$ 2 mil e R$ 4 mil. O total do mês ficou em R$ 26 mil.

No primeiro mês, o contador desviou R$ 5,3 mil em transações de R$ 900 a R$ 1,2 mil (Foto: Reprodução)

Os desvios eram sistemáticos e ocorriam todos os meses. Como ninguém desconfiava na prefeitura, ele passou a ampliar o valor desviado. Entre os dias 12 e 31 de maio de 2023, por exemplo, foram oito transferências de R$ 12 mil, uma de R$ 8 mil e outra de R$ 1,2 mil. No total, foram desviados R$ 105,2 mil.

A manobra criminosa foi perpetuada ao longo dos anos. Em outubro de 2025, entre os dias 2 e 13, ele desviou mais de meio milhão de reais. Foram 10 pagamentos de boletos falsos no valor de R$ 15 mil. No dia 2 de outubro de 2025, Michell Bruno fez a retirada de R$ 299.294,65 dos cofres da prefeitura por meio do Nu Bank e do Mercado Pago. No dia 13, foram fracionados mais R$ 299.705,67 em pagamentos de boletos, que caiam na conta do contador. Foram desviados R$ 599 mil neste mês.

Três anos impune e sem ser descoberto, ele ficou mais abusado e desviou mais de meio milhão de reais em outubro (Foto: Reprodução)

A verdadeira farra com dinheiro público

Michel foi exonerado do cargo de tesoureiro em agosto de 2023, mas ele manteve a credencial para acessar o sistema da prefeitura e permaneceu praticado os crimes até outubro, quando foi preso pela Polícia Civil.

Na denúncia, o promotor de Justiça Ronaldo Vieira Francisco descreve como funcionava o esquema que levou ao desvio de R$ 5.371.808,74.

“Tem-se dos autos que o servidor registrava no sistema, de forma indevida, valores fictícios ou inferiores aos efetivamente arrecadados pelo Fisco, com o propósito de apropriar-se da diferença, desviando a quantia excedente para contas bancárias de sua titularidade, bem como promovendo a quitação de boletos bancários emitidos em seu benefício, nos quais figurava como destinatário final dos recursos públicos desviados em proveito próprio”, apontou.

Para evitar a descoberta dos desvios, o contador reduzia os valores dos impostos arrecadados pelo município e incluía o pagamento dos “boletos”. Só que o dinheiro caia na sua conta bancária no Nu Bank, Mercado Pago e Banco do Brasil.

“Asseverou, ainda, que a ocultação dos desvios ocorria por meio de ajustes fraudulentos nos lançamentos das receitas, a exemplo do registro contábil de valores inferiores aos efetivamente arrecadados, de modo a suprimir aparentes discrepâncias ao final do mês, sendo os desvios perpetrados em momentos distintos, com maior incidência nos primeiros dias do mês e posteriores compensações, especialmente quando da entrada de receitas recebidas antes do dia 20”, destacou Francisco.

O dinheiro usado para jogos de azar. Conforme a denúncia, a quebra do sigilo bancário mostrou que Michell gastou R$ 914,1 mil apenas em jogos de loteria. No total, foram 1.309 apostas feitas em quatro lotéricas.

No cargo desde janeiro de 2021, Toninho da Cofap nunca suspeitou dos desvios do funcionário de confiança (Foto: Arquivo)

“Por fim, o mesmo relatório destaca débitos agregados por estabelecimento que corroboram o uso de jogos e apostas como mecanismo de lavagem de recursos, a exemplo da Lotérica Shopsorte Ltda., que figura também como destinatária de R$ 447.097,07 (quatrocentos e quarenta e sete mil, noventa e sete reais e sete centavos) em outro quadro de relacionamento, e da Lotérica Pé Quente, com R$ 390.829,14 (trezentos e noventa mil, oitocentos e vinte e nove reais e quatorze centavos), ambos em valores globais que evidenciam a recorrência e a centralidade das lotéricas na dinâmica de circulação e fracionamento adotada pelo agente”, apontou o promotor.

Também torrou o dinheiro público com mulheres. A quebra do sigilo mostrou que gastou R$ 9 mil em poucos dias com uma, enquanto com outra foram R$ 7,3 mil. Não é uma quantia comparável à farra e a orgia promovida pelo banqueiro Daniel Vorcaro com as mais altas autoridades da República, mas para uma cidade como Inocência, com 8,8 mil habitantes, com renda mensal média de R$ 1,6 mil, pode-se dizer que também foi um escândalo.

Movimento de R$ 6,3 milhões

Com um salário mensal de R$ 13.165 em junho do ano passado, conforme o Portal da Transparência, Michel Bruno movimentou R$ 6,3 milhões nas contas bancárias. A maior parte, R$ 4,3 milhões, foi depositada pelo ex-tesoureiro. Outros R$ 606 mil não tiveram a fonte definida pelas instituições bancárias.

A quebra do sigilo fiscal mostrou que o funcionário modesto conseguiu comprar terrenos, imóveis e veículos. Para o MPE, a movimentação era incompatível com a renda como contador da prefeitura, onde ingressou por meio de concurso público em 2018. Ele ainda foi aprovado no concurso público e tomou posse como contador da Câmara Municipal em agosto do ano passado, dois meses antes de ser preso.

Outro dado é que os desvios ocorreram no mandato do atual prefeito, Antônio Ângelo Garcia dos Santos, o Toninho Cofapi (PP), no cargo desde 2021. Ele foi reeleito com 70,27% dos votos em 2024.

Advogado renuncia e adia julgamento

O juiz Plácido de Souza Neto, em substituição na Vara Única de Inocência, aceitou a denúncia por falsificação de documento público, usurpação de função e peculato contra Michel Bruno em 11 de fevereiro deste ano.

O julgamento estava marcado para o dia 28 de maio último, mas foi cancelado. O advogado de defesa, Ivan Mateus de Freitas, renunciou ao mandato sete dias antes da audiência. Também ingressou com incidente de insanidade mental.

Transtorno do jogo patológico

Além de suspender o julgamento, a defesa alegou que Michell Bruno sofre de transtorno do jogo patológico, hiperfagia (aumento anormal do apetite ou fome) associado a outros distúrbios e transtorno misto ansioso e depressivo.

O incidente de insanidade foi aceito pela Justiça e um laudo psicológico apontou que o réu não é inimputável – ou seja, pode ser responsabilizado criminalmente pelos seus atos. Ele também alegou que fez cirurgia bariátrica.

O contador está com dois habeas corpus pendente de julgamento no Tribunal de Justiça, que seguem sob análise dos desembargadores Elizabete Anache e Emerson Cafure.

/O Jacaré

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