Presos tentaram usar dinheiro público em contrato suspeito na Santa Casa

  • Polícia
  • 13/09/2026 09:19

O Gecoc/MPMS (Grupo Especial de Combate à Corrupção do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul) revelou à Justiça que diretores, ex-diretores e o empresário presos em uma operação contra corrupção na Santa Casa de Misericórdia de cogitaram usar recursos públicos emergenciais para pagar parte de um contrato milionário alvo da investigação.

Em outubro de 2024, a Santa Casa assinou contrato com a empresa Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços (CNPJ 23.147.735/0001-48) para a digitalização de prontuários médicos. A firma tem como sócio o empresário Maurício Benites. 

Como se não bastasse, os promotores constataram que as outras duas empresas que participaram da cotação de preços são ligadas a Benites. A Ex Be Tecnologia e Serviços e a Infortech Informática também teriam o empresário na sociedade.

O contrato previa pagamento mensal de R$ 150 mil. A Redvalue venceu oferecendo o preço de R$ 0,05 por cada página digitalizada. Porém, apenas em março de 2026, o Gecoc constatou pagamentos de R$ 985.425.

Apesar disso, a investigação aponta que a empresa era paga mesmo sem atingir a meta contratual de digitalização. Mesmo com questionamentos do Conselho Fiscal e de órgãos de controle, a contratação foi mantida.

‘Vamos fazer das tripas coração para pagar algumas partes para você’

Conversas interceptadas pelo MPMS apontam que a contratação não teve competitividade efetiva. Além das empresas participantes estarem ligadas a uma única pessoa, o então vice-presidente da Santa Casa enviou uma mensagem de áudio para o empresário Maurício Benites justificando um eventual atraso nos pagamentos.

Em abril de 2025, o Governo do Estado fez um repasse emergencial, via bancada federal, de R$ 25 milhões para ajudar o hospital, que enfrentava mais uma crise financeira. Essa verba seria paga em três parcelas de R$ 8,3 milhões.

Dentro desse montante, havia R$ 1,8 milhão destinado exclusivamente para pagamento de salários e medicamentos. O então vice-presidente justifica que vai aguardar a segunda ou a terceira parcela ser paga para quitar o contrato.

“Não tem como pagar 1 milhão e 800, porque eu estou o governo em cima, estou com a auditoria em cima, que a prioridade do governo, e foi muito bem frisada isso na reunião, e a senadora estava presente, está toda a bancada federal  presente, inclusive a prefeita também estava, é para pagar medicamento e médicos. E nós vamos fazer das tripas coração para pagar algumas partes para você”, disse.

O governo de fato cobrava mais transparência da diretoria da Santa Casa. Foi recomendado elaborar um novo modelo de gestão para evitar a dependência de recursos extras para fechar as contas.

O então dirigente ainda destaca a união de parlamentares, da prefeita Adriane Lopes (PP) e do governador Eduardo Riedel (PP) para evitar o colapso do centro médico.“Está no documento, até te mostro o documento que foi assinado por toda a bancada federal, pelo secretário de Saúde, pela prefeita e pela doutora Alir, a especificação do recurso. Inclusive, a doutora Alir, no discurso, agradeceu pela digitalização, todo mundo sabe, o setor é público e notório, só que estão com esse imbróglio. Se nós não comprarmos medicamento e pagar o médico, para tudo”, justificou.

O Gecoc pediu a prisão preventiva desse ex-vice-presidente, mas esse foi o único pedido que a Justiça não acolheu.

O advogado Rodrigo Dalpiaz, que representa o empresário Maurício Benites, informou que ainda não teve acesso ao processo, mas que irá se manifestar na segunda-feira (14) após estudar o caso.

Em 11 de setembro de 2026, o MPMS (Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul)  por meio do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) e do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado)  realizou a Operação Antidotum, contra um suposto esquema de fraude em contrato da Santa Casa de Misericórdia de Campo Grande.

Foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão, em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO).

Os alvos foram:

Alir Terra Lima, presidente da Santa Casa de Misericórdia de Campo Grande;

Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, diretor-adjunto de finanças do hospital;

Rinaldo Hakme Romano, ex-diretor financeiro do hospital;

Alessandro Dias Junqueira, ex-diretor administrativo do hospital;

Monique Gregório de Oliveira, coordenadora do Serviço de Arquivamento Médico e Estatística do hospital;

Maurício Aparecido Benites, empresário.

As investigações apontaram possíveis fraudes e desvios de dinheiro em contrato firmado pela ABCG (Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande) — mantenedora da unidade — para a prestação de serviços de digitalização de prontuários, no qual foram efetuados pagamentos elevados sem a devida prestação de serviços.

O contrato previa pagamento de R$ 1,8 milhão por ano e tinha vigência de três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Somente no primeiro ano de vigência, o desvio de recursos totalizou R$ 1,4 milhão.

O Gecoc constatou, ainda, irregularidades em contratos celebrados pela operadora de plano de saúde Santa Casa Saúde com diversas empresas do mesmo grupo. Essas empresas, cujo proprietário tinha ligações com a diretoria da Santa Casa, estavam registradas no mesmo endereço, mas o imóvel, na verdade, estava desocupado.

Somente em 2025, a Santa Casa Saúde pagou R$ 9,6 milhões para essas empresas e gerou um prejuízo de, no mínimo, segundo apurado até o momento, R$ 3,5 milhões.

Além disso, contratos, pagamentos e prestações de contas eram sistematicamente sonegados dos órgãos de controle, incluindo o Conselho Fiscal da Santa Casa e a CGE-MS (Controladoria-Geral do Estado de MS).

O total do prejuízo causado à Santa Casa de Campo Grande ainda está sob investigação.

A ação contou com apoio operacional do BPChq/PMMS (Batalhão de Choque da Polícia Militar de MS) e a participação da Comissão de Defesa e Assistência das Prerrogativas dos Advogados da OAB-MS (Ordem dos Advogados do Brasil Seccional de MS).                                                                                                      “Antidotum”, termo que dá nome à operação, traduz-se do latim como “antídoto” e significa contraveneno ou contramedida, substância que neutraliza ou impede a ação nociva de uma toxina no organismo. Também é usado no sentido figurado como recurso ou solução contra um problema.

                                                                                                                                      Adriel Mattos-Midia Max

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